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Em defesa do Sistema S

Claudio de Moura Castro, colunista da revista Veja, questiona por que ninguém propõe mexer na educação pública e critica propostas que afetam o Sistema S

Título original: A mãezona estatal cuida de tudo

Publicado na revista Veja, edição nº 2603, com data de 10 de outubro de 2018

Por Claudio de Moura Castro

Quando dirigia uma unidade de políticas de formação profissional na Organização Internacional do Trabalho (OIT), em Genebra, recebi a visita de um russo, o vice-ministro do Trabalho. Ele estava radiante com a onda de privatizações em seu país. Pretendia entregar o encargo de formar gente às empresas. Retruquei que, se desse certo, seria um duplo e belíssimo sucesso. Aliviaria os orçamentos públicos e promoveria o turismo, pois haveria filas para visitar uma fórmula que não existe em parte alguma do mundo.

Na cornucópia de propostas dos candidatos à Presidência do Brasil, o Sistema S acaba na mira de alguma ideia salvadora — aliás, isso se repete em períodos de eleição. Por que a ninguém ocorre propor cobrança para a educação básica pública? Na verdade, é coisa bem parecida com formação profissional. Lucra quem a recebe e os benefícios se espalham por toda a sociedade (os economistas chamam isso de Economias Externas). Mesmo nas sociedades mais entusiasmadas com os mercados, há tanto redes de escolas públicas como caríssimos sistemas de formação profissional, nos quais a maioria dos cursos é gratuita. Neste nosso país, que ama ver a mãezona estatal cuidando de tudo, ninguém propõe mexer na educação pública. Sendo assim, focalizemos a preparação da mão de obra, alvo frequente de planos redentores.

Se não for o Estado, quem pagará as contas? Pela lógica, quem faz os cursos deveria pagar, pois é quem mais lucra com eles. Quando se trata de níveis mais sofisticados, faz sentido. Mas a maioria dos cursos se destina a uma clientela modesta, incapaz de arcar com um tipo de formação que tende a ser cara. E que, além disso, não percebe tão claramente os seus benefícios futuros. Se ela tivesse de pagar, praticamente desapareceria a formação inicial. E, tal como na escola regular, desapareceriam os ganhos de produtividade, bons para toda a sociedade.

Mas e as empresas que se beneficiam de gente mais preparada? Pagariam? Não nos esqueçamos, a formação inicial tende a ser longa. Como faltam boas fórmulas para obrigar o graduado a permanecer na empresa, financiar tal treinamento é má ideia para ela. Cortar os fundos públicos condenaria a formação inicial à extinção.

Sendo assim, a única solução que se encontrou é o Estado cobrir aquele treinamento que não é autofinanciável, seja pelas empresas, seja pelos alunos. Nesse sentido, o Sistema S é uma solução muito feliz, pois dispõe de fundos públicos e tem as vantagens de uma gestão privada (pelas federações patronais). Sempre ouvi elogios a essa fórmula brasileira e aos seus resultados, sobretudo por parte dos experts internacionais. De resto, pesquisas mostraram uma ótima relação custo-benefício para o Senai, que ganhou o primeiro prêmio na competição internacional WorldSkills. O Sistema S não é homogêneo, tendo seus cacoetes. Mas, parafraseando Ortega y Gasset, não podemos abandonar o uso pela existência de abusos. Faz mais sentido entender bem como funciona e aparar as arestas.

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