Melhorar a fiscalização e reduzir o desperdício são desafios para a indústria de alimentos

O excesso de burocracia, a ineficiência do serviço de fiscalização sanitária e o grande desperdício em todas as etapas de produção, industrialização e distribuição, são alguns dos principais desafios que a indústria de alimentos tem pela frente e precisa superar para se desenvolver e melhorar sua competitividade.  A afirmação é de Roberto Pecoits, coordenador do Conselho Setorial da Indústria de Alimentos da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), que abriu nesta quarta-feira (31) o Encontro Paranaense da Indústria de Alimentos, promovido pela Fiep em parceria com os 16 sindicatos industriais do setor com patrocínio do Sesi no Paraná e a Indemil e apoio da Balas de Antonina, do International Features Standards (IFS) e do Ovos Gralha Azul.

“Para exportar, por exemplo, são exigidas 40 licenças, o que significa que há uma sobreposição, com mais de um órgão fazendo a mesma coisa e exercendo a mesma fiscalização”, observa. “Vamos aproveitar a troca de governo para apresentar sugestões que simplifiquem e melhorem a fiscalização e reduzam o desperdício no setor”, informou.

Segundo Pecoits, a duplicidade de órgãos fazendo a fiscalização e o enorme emaranhado de normas e leis não impediu problemas graves, como os denunciados pela Operação Carne Fraca. “Isso prova que não é a quantidade de órgãos fiscalizando que vai resolver os problemas sanitários. É preciso melhorar a fiscalização para torná-la eficiente”, reforçou o coordenador.

A indústria de alimentos é a mais importante do setor industrial paranaense, com 3.900 empresas responsáveis por 28% do PIB industrial do Estado. É o maior gerados de empregos. São 180 mil postos de trabalho e 500 mil se considerar toda a cadeia agroalimentar. O setor paranaense gera R$ 78 bilhões em receitas líquidas de vendas. O Paraná é o terceiro estado em faturamento no setor agroalimentar, ficando atrás apenas de São Paulo e Minas Gerais.

O grande desperdício no setor também foi um dos pontos debatidos no evento. De acordo com dados da FAO (Fundação das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), em todo o mundo o desperdício de alimentos nas diversas etapas do processo de produção, transporte, industrialização, distribuição e armazenagem é de 1,3 bilhão de toneladas por ano, o que seria suficiente para alimentar 800 milhões de pessoas.

Rota Estratégica – Os 16 presidentes de sindicatos industriais do setor de alimentos presentes no Encontro receberam a Rota Estratégica da Indústria Agroalimentar 2031, um estudo elaborado pelo Observatório Sistema Fiep com a participação de representantes de empresas, governo, meio acadêmico e terceiro setor que relata as principais visões de futuro para o segmento em um cenário de priorizações a serem realizadas.

O estudo contextualiza a necessidade de o setor investir em gestão, pesquisa, inovação, novas tecnologias e marketing para responder ao desafio de atender à crescente demanda por alimentos. “Até 2050 haverá um aumento de 35% na população mundial e a previsão é que a necessidade de nutrição para alimentar estas pessoas cresça 50% já que a tendência é haver também uma melhoria do acesso da população aos alimentos”, disse Ariane Hinça Schneider, coordenadora técnica do Observatório Sistema Fiep. Além disso, segundo ela, haverá um significativo aumento da população idosa que vai demandar uma alimentação diferenciada.

De acordo com o estudo, em pouco tempo deve haver um esgotamento das áreas agricultáveis e os recursos naturais não darão conta de atender a esta crescente demanda por alimentos. Para isso, é necessário reduzir o desperdício e é nesta linha que surge o conceito de economia circular, onde em cada etapa se pensa na reutilização dos recursos e não se tem mais resíduos, mas sim subprodutos. Tudo é aproveitado. Dentro deste conceito, os alimentos com pequenos defeitos que não têm um bom aspecto visual têm lugar garantido, bem como as embalagens, todas sendo aproveitadas, algumas, inclusive, sendo comestíveis. Entram também nesta tendência alimentos sendo produzidos por meio da nanotecnologia e até através de impressoras 3D. Para resolver o esgotamento das áreas agricultáveis já há experiências em alguns países de fazendas urbanas, com prédios inteiros construídos para a produção de alimentos.

A preocupação com a procedência dos alimentos e com o sistema de criação que preserve o bem-estar animal é também cada vez mais presente no consumidor e será determinante na decisão de compra no futuro. Além disso, o estudo aponta também uma crescente demanda por alimentos funcionais, orgânicos e personalizados. “São muitos desafios, mas também muitas oportunidades que as indústrias do setor têm pela frente”, destaca Ariane Hinça.

Qualificação profissional – A necessidade de se investir na qualificação profissional dos trabalhadores do segmento foi também destacada no evento. “Estamos trabalhando fortemente com o setor de alimentos para oferecer soluções que contribuam com os seus negócios, entre elas está a formação e qualificação profissional”, disse José Antonio Fares, superintendente do Sesi e IEL no Paraná e diretor regional do Senai no Paraná. Segundo ele, das 3.900 indústrias do setor no Paraná, apenas 1.200 contratam o Sistema Fiep para a prestação de serviços. “Temos muito a oferecer a estas empresas e muito a contribuir”, destacou. Ele citou investimentos recentes da entidade para dar suporte ao setor, como 10 novas unidades móveis para oferecer cursos de qualificação e o Instituto Senai de Tecnologia em Alimentos, inaugurado em maio deste ano.

O evento abordou ainda temas como rotulagem, vigilância sanitária e internacionalização. Participaram cerca de 350 pessoas, entre industriais, profissionais e lideranças do setor.

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