Construções sustentáveis substituem concreto por madeira

Tema foi tratado no Fórum Visões, promovido pela Fiep, pelo engenheiro britânico Robert Foster, um dos projetistas de um arranha-céu de 80 andares em madeira

Robert Foster, é PhD em Engenharia Estrutural pela Universidade de Cambridge (Fotos: Gelson Bampi)

O aumento da população urbana mundial, somado às mudanças climáticas, obriga a sociedade a buscar novos modelos construtivos, que sejam mais ágeis e sustentáveis. Esses são alguns dos princípios que motivaram a concepção do Oakwood Timber Tower, um arranha-céu de 80 andares em madeira, projetado para ser erguido na região central de Londres. Os detalhes do projeto, assim como o panorama da utilização de madeira na construção de edifícios, que vem ganhando força em várias partes do planeta, foram abordadas pelo engenheiro britânico Robert Foster em palestra na noite desta quarta-feira (20), em Curitiba, promovida pela Federação das Indústrias do Paraná (Fiep).

Foster, que é PhD em Engenharia Estrutural pela Universidade de Cambridge, foi o convidado de mais uma edição do Fórum Visões, série de encontros que discute caminhos para o crescimento do setor produtivo paranaense e brasileiro. Falando sobre o tema “Inovação e Sustentabilidade: arranha-céus de madeira e o futuro das construções”, o engenheiro afirmou que a busca por novos modelos construtivos é uma necessidade para o planeta. “O ponto-chave é a compreensão de que existe um aumento muito rápido da população”, disse. “Quando eu nasci, a população urbana global era de 2 bilhões de pessoas, hoje ela dobrou. Quando me aposentar, ela será de aproximadamente 6 bilhões de pessoas e há a questão sobre onde todas essas pessoas vão morar”, completa.

Em sua opinião, se essa demanda por moradia for suprida pelos métodos de construção mais utilizados atualmente, que tem como base o uso de concreto, existe o risco de se acentuarem os impactos sobre as mudanças climáticas. “Hoje, as construções são responsáveis por boa parte das emissões de gás carbônico. Para se fazer concreto, é preciso cimento, e para isso há muita emissão de carbono. Precisamos pensar em processos construtivos que emitam bem menos, e aí surgem como alternativa os materiais naturais, com base em plantas”, justificou.

Para Foster, esse apelo sustentável será o grande trunfo para uma maior disseminação de construções em madeira. “A madeira é um material que tem carbono negativo embutido em seu ciclo. Quando a árvore cresce, absorve carbono, e não o devolve ao ambiente quando é utilizada na construção. E novas árvores serão plantadas em seu lugar”, explica.

Imagem com projeção de como o Oakwood ficará na região central de Londres (Foto: Divulgação/PLP Architecture)

Mudança de cultura
Apesar de todas as vantagens apontadas por Foster, ele admite que, para uma maior disseminação do uso da madeira em processos construtivos, especialmente em edificações mais altas, é necessário avançar em estudos técnicos. Mas o principal desafio é promover uma mudança cultural, já que boa parte das pessoas tendem a imaginar que edificações com esse material são mais frágeis. “Do ponto de vista estrutural, não existem motivos para dizer que a madeira não é resistente. Alguns falam também que não é um material durável, mas existem edificações na China com mais de mil anos que seguem em pé, em uma região sísmica. Portanto, não existem razões para pensar que um prédio em madeira bem projetado não pode durar um bom tempo”, afirma.

Foi justamente com o objetivo de mudar essa percepção que foi criado o projeto do Oakwood Timber Tower, desenvolvido em conjunto pela Universidade de Cambridge, o escritório de arquitetura PLP e a empresa de engenharia Smith and Wallwork. O edifício, projetado para ter 300 metros de altura, distribuídos em 80 andares, foi concebido para ocupar uma área na região de Barbican, no centro de Londres. “O que fizemos não envolve nenhum tipo de mágica ou novas tecnologias, simplesmente montamos o básico a partir de projetos com madeira”, diz. “E não estamos falando de uma madeira nova, mágica, mas o tipo de madeira macia que utilizamos na Europa e vocês estão produzindo aqui também. O que se precisa é seguir os princípios básicos de design”.

Apesar de o projeto já ter sido inclusive premiado, ainda não há previsão de quando pode efetivamente sair do papel, principalmente pelos altos custos. “Ainda não temos como pagar a conta do projeto. Os desenvolvedores e empreiteiros que conversaram conosco nos deram preços altos demais para a área onde iríamos construir. Não era tanto a questão do preço dos itens em si, mas o preço do risco, então tudo foi superestimado”, explica. Para Foster, porém, muito em breve existirão arranha-céus em madeira. “Há dez anos, tínhamos prédios de nove andares. Hoje, já existem prédios sendo construídos com até 24 andares. Em 50 anos, onde estaremos? Acredito que chegaremos alto muito antes disso”, afirmou.

Apesar de a discussão sobre a construção de edifícios em madeira ganhar força em todo o mundo, Foster afirma que ainda existem regiões em que esse processo é incipiente. “A América do Sul, por exemplo, ainda não está presente nesse mapa”, diz.

Edson Campagnolo, presidente da Fiep, fez a abertura do Fórum Visões

Disseminação no Brasil
O presidente da Fiep, Edson Campagnolo, destacou na abertura do Fórum Visões que a palestra faz parte de uma série de iniciativas que a entidade promove desde 2009 para debater o uso da madeira na construção. O objetivo é buscar soluções para que a indústria madeireira paranaense amplie sua presença no mercado interno e para que o setor da construção civil conheça alternativas de sistemas construtivos mais inteligentes, que utilizem processos industrializados e com menor geração de resíduos.

Naquele ano, o Sistema Fiep, por meio do Senai, realizou uma missão técnica à Alemanha, que possibilitou que a tecnologia de construção por wood frame, que utiliza painéis de madeira de reflorestamento, fosse trazida ao Brasil. O passo seguinte foi a criação de uma comissão para discutir detalhes técnicos para que a tecnologia se consolide no Brasil. Dela derivou a Comissão de Estudo de Sistemas Construtivos de Wood Frame, ligada à Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), que atualmente elabora um projeto de norma para regulamentar esse modelo de construção no país.

“Vivemos um momento com tantas tecnologias e inovação sendo desenvolvidas nas mais diversas áreas. O Fórum Visões serve para trazer um norte para a indústria paranaense, apresentando informações para contribuir com seus negócios”, afirma Campagnolo. “O Paraná, por meio dos sindicatos da construção civil e da madeira, tem muitas oportunidades de se desenvolver nessa área, por isso abordamos este tema”, completa.

Hoje, graças à articulação iniciada pelo Sistema Fiep, já existem indústrias no Paraná construindo residências e até edifícios baixos com a tecnologia wood frame. Mas, na opinião de Campagnolo, há um grande potencial para ampliação desse mercado no estado e no país.

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