Participação de manufaturados nas exportações está aquém das possibilidades, diz presidente da Fiep

Seminário Comércio Exterior e a Indústria reuniu especialistas e empresários, em Curitiba

O presidente da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep) Carlos Valter Martins Pedro, destacou a importância do mercado internacional no impulsionamento de negócios para as indústrias ao abrir nesta terça-feira (10 de dezembro), o VI Seminário Comércio Exterior e a Indústria, realizado em Curitiba. O evento foi uma iniciativa da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep) em parceria com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o Ministério da Economia e a Associação de Comércio Exterior Brasileiro (AEB). “O foco da nossa gestão à frente da Fiep é gerar negócios para as indústrias e neste contexto o comércio externo é muito importante”, frisou Carlos Valter.

Para o presidente da Fiep, a participação dos produtos manufaturados na pauta de exportações brasileiras está muito aquém das possibilidades. “Eventos como este têm o propósito de contribuir para o acesso a estes mercados”, disse. “Nós precisamos intensificar a nossa relação com outros países e nos complementar. Precisamos fazer isso funcionar, visando o desenvolvimento da indústria do Paraná”, pontuou.

O gerente de Relações Internacionais da Fiep, Reinaldo Tockus, destacou o mercado externo como estratégico para todas as empresas.  “Os mercados interno e externo sofrem altos e baixos. Porém, raramente acontecem picos coincidentes. Quando um vai mal o outro compensa. Quando o mercado interno está em baixa, as exportações podem ser o caminho e vice-versa, gerando um equilíbrio para que a empresa consiga se manter”, declarou, informando que o Sistema Fiep atua apoiando as indústrias nas decisões mais estratégicas na busca pelas melhores opções de mercado.

Economia fechada – A nova política de comércio exterior do Brasil foi o tema da palestra de Leonardo Lahud, secretário substituto de Comércio Exterior do Ministério da Economia. Ele disse que o diagnóstico atual mostra que a economia brasileira é fechada. O comércio exterior representa apenas 24% do PIB. “Isso é muito pouco. Outras economias que se desenvolveram recentemente, tendo o mercado internacional como um dos vetores do crescimento, já têm participação de 40% a  50%”, comparou. Segundo ele, esse diagnóstico mostra a necessidade de maior integração ao comércio internacional. E esta integração precisa ser feita via Mercosul, abrindo oportunidades de acesso ao mercado externo e a exportar mais. “Quem exporta muito também importa muito e este governo não tem qualquer tipo de preconceito com as importações. Entendemos que a importação de bens de capital, máquinas e equipamentos de alta tecnologia a um custo mais baixo são importantes para aumentar a competitividade da nossa indústria”, pontuou.

Lahud destacou que o trabalho para a inserção do Brasil no mercado internacional vem sendo pautado em  três pilares. O primeiro é a negociação internacional por meio da qual já foi firmado o acordo Mercosul – União Europeia, que gera um mercado potencial de 780 milhões de consumidores. Além disso, o governo brasileiro está trabalhando para a aproximação com outros mercados também estratégicos, como Canadá, Coreia do Sul e Singapura, que devem se consolidar como parceiros comerciais já a partir de 2020. “Há também conversações com Japão, Vietnã, Indonésia, México e Estados Unidos”.

O segundo pilar da agenda é a modernização do Mercosul. “A maior integração do Brasil ao mercado internacional deve se dar por meio do Mercosul”, destacou Lahud. Mas ele reforçou a necessidade de reformar o Mercosul, de torná-lo uma ferramenta moderna e útil que eleve a produtividade e a competitividade não só da economia brasileira, mas dos parceiros comerciais”, disse. De acordo com ele, uma das formas é trazendo setores que estão fora, como automotivo e açúcar, setores importantes para a economia brasileira e argentina, por exemplo. “Outro elemento importante no âmbito do Mercosul é a reforma da tarifa externa comum, que foi implementada há 25 anos e, desde então, o comércio mudou muito, mas o Mercosul mudou muito pouco”, contextualizou. “É preciso uma redução gradual, dialogada com o setor privado”, observou.

O terceiro pilar é relacionado a temas não tarifários, como facilitação de comércio, comércio eletrônico e barreiras às exportações brasileiras. Neste item, destacou o trabalho que vem sendo feito para desburocratizar os processos de internacionalização. “Nossa meta era reduzir de 13 para 8 dias o prazo para exportar e já conseguimos superar a meta, chegando a 6 dias. Agora estamos trabalhando para reduzir o prazo de importação de 17 para 10 dias”, informou.  “Estamos buscando reduzir o número de licenças. Há licenciamentos que são necessários de fato, mas vamos manter apenas os essenciais”, disse.

Barreiras comerciais –  A representante da CNI, Constanza Negri, falou sobre barreiras comerciais, especificamente sobre barreiras de outros países que afetam o Brasil. “O problema é o desconhecimento de barreiras por parte do setor privado devido à dinâmica das empresas. Elas acabam internalizando o custo ou desviam o foco e começam a vender para outro país”, disse. Constanza observou que é característica de empresas de menor porte não ter conhecimento dessas barreiras. “As barreiras têm crescido e se sofisticado. Por meio de acordos bilaterais, multilaterais as tarifas tarifárias têm diminuído, mas as barreiras não tarifárias, têm crescido. “Há uma tendência de os países adotarem medidas protecionistas, algumas pautadas na proteção da saúde do consumidor”, observou. A representante da CNI citou um levantamento da FGV que mostra que o Brasil perde 14% nas suas exportações devido a barreiras técnicas, especialmente  sanitárias e fitossanitárias. “Fica claro que em termos de números é uma área prioritária de preocupação para as exportações brasileiras”, observou.

Custo Brasil – O presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto e Castro, destacou o fato de o Brasil ser um dos poucos países do mundo onde ainda há espaço para aumentar a produção. “Apesar disso, nossas exportações permaneceram estagnadas de 2014 a 2019. Estamos exportando menos do que exportamos em 2007. Muitos países cresceram e nós ficamos patinando”, disse. Ele atribuiu a estagnação em grande parte ao Custo Brasil e, dentro dele, a burocracia, que responde por 30%, além da deficiência de infraestrutura e da exportação de tributos. “Temos que fazer o dever de casa. Nos últimos anos não fizermos nada. Se fizermos, vamos progredir”, acredita. “O Brasil não é um país caro, mas está caro”, contextualizou. Castro disse que as reformas vão contribuir para um menor custo, bem como os investimentos em infraestrutura que vão reduzir os custos logísticos. “A redução dos custos vai abrir os caminhos e acabar com o isolamento do Brasil”, acredita. Para ele, 2020 ainda vai ser o ano de fazer ajustes e 2021 vai ser o ano da virada para o País no comércio internacional.

O evento teve também a participação de Marcio Guerra, da Apex Brasil, que destacou toda a estrutura que a agência oferece para apoiar os empresários na inserção ao mercado internacional. “Podemos apoiá-los com projetos customizados, desenvolvidos especificamente para cada perfil de empresa e para cada negócio”, informou. Outro tema do Seminário foi Comunicação e Marketing. Mônica Schimenes, CEO do grupo de comunicação MCMbrand, alertou a todos sobre a necessidade de networking, das estratégias de posicionamento de mercado e especialmente sobre a necessidade de estar atento e trabalhar o propósito da marca. “O consumidor hoje quer saber o propósito da marca  e isso pesa muito na decisão de compra. As pessoas se relacionam com o propósito das marcas e uma marca pode ser amada ou odiada”, alertou.

Acesso ao mercado – A empresária do setor de moda de Curitiba, Elyane Fiuza, participou do evento com o propósito de buscar informações para acessar o mercado internacional. Há 14 anos ela mantém uma marca, que leva o seu nome, e fabrica bolsas com design diferenciado. Ela comercializa para todo o Brasil e agora quer expandir os negócios para o mercado externo. “Eu tenho objetivo de exportar e vim buscar informações. O evento foi muito esclarecedor, já saio daqui com muitas ideias, já sei como tenho que me estruturar para dar mais um passo”, disse. Elyane contou que no ano passado foi convidada para mostrar o produto em Portugal, Espanha e Itália. “A princípio o meu produto agradou, mas preciso saber se vai vender. Não posso sair daqui para ir lá e não ter venda. Aqui neste evento foi destacada a necessidade do planejamento para exportar e é isso que eu vou fazer”, concluiu.

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